Artigo de Opinião – O Conservadorismo Patriarcal e a Educação Sexual nas Escolas.

Há décadas, talvez até há séculos, se discute sobre o papel da instituição ‘escola’ no ensino da educação sexual. E se perguntamos se caberia o aprendizado humanizado sobre sexualidade nos moldes de uma sociedade conservadora que vivemos hoje — o mesmo que há 100 anos. O principal argumento usado para não apoiar a educação sexual é a frase “querem ensinar nossas crianças a transar na infância”, mas é a isso que se resume? Educação sexual vai muito além de sexo; se trata, na verdade, de entender os limites do seu corpo e do seu cérebro, aprender sobre doenças patológicas e sexuais e também lidar com as constantes transformações e mudanças que o corpo humano passa ao longo dos anos. Há também, nesse mesmo contexto, a forte influência sobre como crianças devem lidar com estranhos, podendo identificar assédio e abusos sexuais. Mas por que a ala conservadora é contra a educação sexual, mesmo não se tratando sobre sexo e sim sobre cuidado, conhecimento e proteção?

Quando nós falamos sobre educação sexual, falamos tanto sobre cuidados que devemos ter durante relações sexuais e os riscos que corremos quando não cumprimos determinados cuidados, como o risco de pegar e/ou transmitir uma IST ou HIV por não usar preservativo ou, exclusivo no caso feminino, o risco de uma gravidez indesejada na adolescência. Se trata também sobre os limites do seu corpo e do seu cérebro; aprender a agir diante de relações abusivas, mesmo se tratando de um relacionamento amoroso. E é claro que esse aprendizado varia de acordo com a idade de cada aluno e com cada turma. Identificar o assédio é o primeiro passo para combatê-lo, e, quando se é mulher em uma sociedade patriarcal que vê o gênero feminino como objeto, talvez explique a resistência conservadora com a educação sexual.

Quando se é adolescente e, de forma independente de seus pais, você aprende sobre vida e sociedade, principalmente jovens progressistas, algumas coisas são como leis. Exemplo disso são os preservativos: indispensáveis em relações sexuais, seja com namorado(a) ou não… Eles não evitam só gravidez no caso das mulheres, mas também centenas de doenças sexualmente transmissíveis.

Vê-se que, até hoje em dia, milhares e talvez milhões de meninas não têm conhecimento sobre menstruação, sobre o que é a menstruação e como lidar com ela por responsabilidade de famílias conservadoras; mesmo a menstruação sendo um processo fisiológico da grande maioria das mulheres. Saber lidar com seu próprio corpo é indispensável; mas uma das partes mais importantes da educação sexual, além dos cuidados com seu próprio corpo, é identificar o assédio moral e sexual.

Quantas mulheres percebem que foram assediadas horas ou até dias depois do ocorrido… e a questão que fica é: isso poderia ser evitado?

A educação sexual não é só importante; ela é necessária.

“Uma amiga conseguiu um trabalho pra mim. Nos primeiros dias, meu chefe me abraçava e, no meio do abraço, descia a mão e acariciava meus braços. Depois, começou a pôr a mão no meu peito e me alisar. Quando eu recebi meu primeiro salário, ele me beijou à força e, sempre que estávamos juntos, ele tentava me agarrar, mesmo eu me esquivando.” Durante o período de violência, a vítima tinha 15 anos. Os acontecimentos relatados aconteceram dentro de uma loja, em um dos hotéis mais tradicionais da cidade, no caminho das Cataratas do Iguaçu.

O relato traz à tona a objetificação feminina por parte de chefes e patrões, que agem como se suas funcionárias e subordinadas fossem objetos de prazer sexual, tratando-as como descartáveis caso recusem suas investidas sexuais. Não só desumaniza a vítima, mas também perpetua a ideia de que mulheres estão à disposição dos homens.

“Eu estava voltando da academia, praticamente na esquina de casa, quando passou um carro por mim. Eram garotos; um deles abaixou o vidro da frente, buzinaram e me chamaram de ‘gostosa’. Eles pararam o carro e ficaram por um tempo lá. Eu apenas segui meu caminho e fiz de conta que não era comigo, mas fiquei atenta. Eu tive medo de responder algo e, por isso, apenas ignorei. Depois disso, eu parei de ir à academia também, não apenas por isso, mas era um local frequentado majoritariamente por homens mais velhos, que viviam fazendo piadinhas comigo, me deixando super desconfortável. Eu tinha vergonha de treinar e, durante o caminho, sempre procurava ir pelas ruas menos movimentadas; parecia que eu estava me escondendo, e isso tudo era extremamente desgastante. Eu acredito que devíamos criar mais academias só para mulheres.” O relato é de uma adolescente que, durante os fatos relatados, também tinha 15 anos.

Culturalmente, homens aprendem que mulheres devem ser elogiadas. Mas há uma clara defasagem de onde esses ‘elogios’ devem ser utilizados. Também há divergência em relação ao que é considerado elogio e importunação; “nossa, como você é bonita” e “gostosa” são bons exemplos para demonstrar essa diferença.

Em um dos casos, de fato, um elogio — que pode ou não ser bem recebido. Porém, no outro caso, vemos mais uma vez a objetificação sexual do corpo feminino. O termo em questão, utilizado para se referir a comida ‘gostosa’, direcionado para uma mulher na rua. A cultura do estupro enraizada na sociedade humana é um dos fatores que traz reações como a relatada pela vítima: a paralisação, ignorando totalmente os comentários de cunho sexual feitos para ela por estranhos.

Vem à tona a necessidade masculina de ter um corpo feminino para referir-se como objeto, seja de cunho sexual, machista ou misógino. Ideias de que mulheres existem para servir os homens.

“Eu fui abraçar o meu avô; estava no auge da minha puberdade… E, quando eu o abracei, ele apertou meu peito. Eu fiquei sem reação e não contei para ninguém, por vergonha. Acho que percebi na hora, mas só depois de um tempo a ficha do que tinha acontecido realmente caiu.” Durante a violência sofrida, a vítima tinha 14 anos de idade e foi assediada dentro da própria casa e por um familiar.

Isso mostra que, mesmo dentro da própria casa, mulheres e meninas são tratadas como objetos, sendo tipificadas como nascidas para prazer dos homens. E onde entra a educação sexual nessa história?

A educação sexual não se trata apenas de ensinar as garotas como identificar o assédio; ela também é fundamental para romper o ciclo cultural do estupro, assédio e da tipificação sexual feminina. Esses relatos mostram que não há lugar seguro para elas — seja no trabalho, na rua de casa, na escola ou até mesmo na própria casa. Enquanto o conservadorismo dominar a sociedade em que vivemos, as mulheres continuarão sendo tratadas como objetos.

A luta contra a cultura do estupro é coletiva e exige a união de todos na sociedade. A educação é um dos pilares fundamentais nessa batalha, pois pode moldar comportamentos e atitudes desde cedo. Para derrubar uma cultura milenar enraizada no patriarcado, é necessário unir forças; essa mudança deve vir de uma transformação cultural mais ampla, onde todos se sintam responsáveis pela construção de um mundo mais seguro e respeitoso.

Isso ressalta a necessidade de um ambiente de diálogo aberto e de conscientização, onde tanto meninas quanto meninos possam discutir esses temas sem tabus, rompendo culturas de milênios. A dúvida que fica: o conservadorismo patriarcal permitirá tamanha façanha?

Publicado por Voz Incômoda

Nem todo silêncio é ausência — às vezes, é omissão. Aqui, não há espaço para neutralidade confortável. Há reflexão, posicionamento e a coragem de falar sobre o que incomoda.

Deixe um comentário